sábado, agosto 05, 2006

OS AMARELOS DA BICA



Hoje são verdadeiros sobe-e-desce turisticos, galgando a colina desde São Paulo até ao Calhariz, pelas calhas fieis da Bica de Duarte Belo.
São dos elevadores mais famosos de Lisboa, operados pela companhia Carris e pintados com o mesmo amarelo vivo dos eléctricos. Pena é que nos últimos anos confusões diversas entre conceitos de arte popular e vandalismo se exprimam nestes ícones da Carris.
São pintados e muito bem mantidos, mas a fúria artistica não dá tréguas e os nossos elevadores expõem frequentemente gatafunhos feios, sujos e maus, a espelhar os seus criadores clandestinos.
Texto e fotos de L. M. Correia - 2006

JARDINS SUSPENSOS LISBOETAS



Os jardins suspensos lisboetas são um elemento importante numa paisagem rica de cores e formas da cidade antiga.
Ao lado de habitações populares escondem-se discretos palácios. Muito do património precisa de cuidados de recuperação apesar de nos últimos anos se ter feito mundo na reabilitação de prédios, agora com cores mais vivas a retribuir a alegria natural da luz e ambiente da cidade do Tejo.
Palavras e imagens de Luís Miguel Correia - 2006

CIDADE DA ROUPA ÀS CORES




A dois passos do Chiado, mesmo ali à Bica, a roupa lavada empresta os seus desenhos coloridos a uma paisagem feita também de estendais.
Tudo parece ter parado no tempo, muito lá atrás em pinceladas de uma suave decadência adormecida em raízes medievais.
As limitações sociais decorrentes de uma população envelhecida com poucos meios de vida é cartaz típico para turistas. Lisboa torna-se ainda mais beautiful...

Imagens e palavras de Luís Miguel Correia - 2006

quarta-feira, agosto 02, 2006

O SEM ABRIGO DE SANTA CATARINA

Largo de Santa Catarina. Uma porta nobre salpicada de decadência a enquadrar mais uma criatura que de uma forma politicamente correcta apelidamos de sem abrigo.
Sem abrigo, expondo na rua a falta de sorte, a desumanidade lisboeta, a da tal capital atlântica e europeia que ainda persiste em quadros medievais destituídos de dignidade. Lamentável.
Mesmo a li ao lado, nas escadinhas da Travessa da Portuguesa, um gato da mesma cor, também sem abrigo, agonizava. Ao lado, esvoaçavam os turistas encantados com o pitoresco das decadências de Lisboa, tão hábil sempre a esconder as misérias por entre a magia de uma luz brilhante, tão bonita.

Fotografou e escreveu Luís Miguel Correia - 2006

sábado, julho 29, 2006

D. DINIS de Fernando Pessoa

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
o plantador de naus a haver,
e ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Fernando Pessoa in MENSAGEM

Foto de Luís Miguel Correia - 2006

ESTACIONAMENTO EXEMPLAR

Vista da Praça do Munícipio, em Lisboa, com o edíficio sede da Câmara Munícipal, e uma viatura camarária estacionada indevidamente em cima do passeio, mesmo junto à entrada do parque subterrâneo local.
Um mau exemplo, desnecessário e inestético. Terá recebido uma multazinha da nossa tão esforçada PSP?

Texto e foto de Luís Miguel Correia - 2006

CONTRASTES DISCRETOS

No decurso das minhas deambulações fotográficas pela Baixa Pombalina de Lisboa, entre a beleza óbvia do conjunto, a benção da luz atlântico-mediterrãnea e o fascínio do lugar, surgem curiosidades discretas, como as que aqui traduzimos nestas três imagens: o grafito a filosofar sobre o Tempo, numa esquina da Rua dos Sapateiros, a placa da loja de chás e cafés Casa Pereira da Conceição, na Rua Augusta, e um cartaz de Bento XVI, de expressão teutónica, com a carga emocional de todo o seu conservadorismo e autoridade, numa montra da Rua do Crucifixo.



Texto e fotos de Luís Miguel Correia- 2006

segunda-feira, julho 24, 2006

GRANDES VELEIROS EM LISBOA



De 19 a 23 de Julho último, Lisboa recebeu uma frota de grandes veleiros que atracaram à Rocha do Conde d'Óbidos e à Doca de Alcântara e atrairam as atenções de cerca de 500.000 visitantes.
Os navios despediram-se do Tejo ontem com um desfile naval muito concorrido, e seguiram para Cádis.
Para quem não teve oportunidade de ver os navios, aqui ficam alguns registos fotográficos.
Texto e fotografias de Luís Miguel Correia - 2006

quinta-feira, julho 20, 2006

EMVOLVENTE DA PRAIA DE ALGÉS



O alindamento relativo da Praia de Algés e respectivo passeio marginal prolonga-se até à entrada da Docapesca, sendo frequentado por inúmeros transeuntes em socializações várias e contemplações ribeirinhas.
Limitando a actual Praia fica a Torre que a APL construiu recentemente destinada ao controlo do tráfego portuário (VTS).
Em frente estende-se prazenteira a Trafaria com os seus magníficos silos de cerais e complexo graneleiro portuário. E mesmo ao lado, uma obra Filipina, o Faról do Búgio.
O molhe que vai até à entrada da Docapesca podia estar mais limpo e ordenado, mas já foi pior, não se pode ter tudo, e o local apresenta uma morfologia de transição, se forem avante os projectos da APL para o local, nomeadamente a transformação da Doca de Algés (Docapesca) num ancoradoro para grandes embarcações de recreio e o desenvolvimento de projectos imobiliários de luxo.
Teremos assim dado a volta ao círculo, com a requalificação da Algés ribeirinha para ricos e os pobrezinhos definitivamente despojados da sua Malibú de sonho. Um mundo cruel, sem dúvida. E entretanto lá se acabou a lota de Lisboa e o respectivo peixe fresco, em nome de uma regata que acabou por se concretizar em Valência...
Texto e fotos de Luís Miguel Correia - 2006

PRAIA DE ALGÉS



No tempo das Caravelas e respectivas Descobertas, a margem norte do Tejo multiplicava-se em Praias, da Boavista ao Restelo - último abrigo seguro para os navios antes de se fazerem à Barra.
Os aterros dos séculos XIX e XX, nomeadamente a regularização da margem efectuada pelo Porto de Lisboa, de que a actual frente da Junqueira é um exemplo, normalizaram os recortes naturais do Rio. A Torre de São Vicente de Belém há muito deixou de ser uma ilha, e das antigas praias resta uma amostra mínima de areal em Pedrouços, a juzante do Forte do Bom Sucesso, e a praia de Algés, também muito reduzida e domesticada, com as obras portuárias efectuadas na zona a partir dos anos sessenta, caso da Docapesca e mais recentemente a nova doca da Torre VTS.
No século XIX Algés chegou a ser praia da moda, perdendo depois a sua clientela mais sofisticada em prol de destinos mais longínquos, os Estoris e Cascais, conforme as preferências da Família Real. Sem pretensões a ter bandeira azul ou de qualquer outra cor, a Preaia de Algés ganhou recentemente alguma vida para além do seu contexto social de recurso fluvio-balnear para os pobrezinhos da zona. O arranjo da envolvente da praia e um cuidado mínimo com a sua limpeza tornaram o local mais atractivo. Um restaurante Mexicano, uma promenade com palmeiras e gente a passear, usufruindo o rio. Quando lá estivemos recentemente, banhistas apenas um...

Texto e fotografias de L. M. Correia - 2006

domingo, julho 16, 2006

NAMORAR À BEIRA RIO

A minha cidade é linda, chama-se Lisboa e tem encantos sem fim. Muitos derivam do Tejo, esse traçado de água esverdeada que refresca a cidade em termos de paisagem e contrastes. E os Lisboetas sabem disso. É vê-los ao fim de tarde a namorar à beira rio. Como Lisboa, os seus nativos também têm encantos vários. Juntos numa simbiose de que resulta uma cidade magnifica. Um dos melhores climas da Europa, uma luz incomparável...
Texto e fotografias de L. M. Correia - 2006

segunda-feira, julho 10, 2006

UMA JANELA PARA A CIDADE

Durante muitos anos andei de eléctrico por Lisboa. Foi há muitos anos, os eléctricos eram muitos mais do que são actualmente. Carreiras mais distantes, viagens especiais com bilhetes para operários. Como o 16, do Poço do Bispo para Belém, pelas Janelas Verdes, Pampulha, Alcântara, com duas carruagens... E o 28, da Estrela para o Chiado ou a Rua da Conceição, que normalmente não me aventurava além daí.
Muitas vezes iam cheios, passageiros em pé, cadeiras de palinha só para os mais velhos ou os bafejados pela sorte de uma cadeira vaga. Sentado, o percurso era uma verdadeira viagem panorâmica pela cidade. Como acontece hoje com os turístas e os carteiristas que ao que parece muitas vezes os aliviam de valores efémeros. Turistas e ladrões às voltas pela Lisboa dos eléctricos. Por mim fico-me pelas saudades.

Foto e texto de Luís Miguel Correia - 2006

sexta-feira, julho 07, 2006

TERREIRO DO PAÇO



Principal praça da Baixa Pombalina de Lisboa, a Praça do Comércio continua a ser para a maioria da população o Terreiro do Paço.

Aí existiu, do lado poente o Paço da Ribeira, mandado edificar por D. Manuel I e tudo se perdeu com o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Para financiar a reconstrução da cidade, o Marquês de Pombal lançou logo a 2 de Janeiro de 1756 uma taxa de 4 por cento sobre as importações, que se traduziu em somas avultadíssimas suportadas principalmente pelos comerciantes de Lisboa, razão pela qual à praça se deu o nome oficial de Praça do Comércio. É uma bela praça fronteira com o Tejo que apesar de desprezado continua a ser a alma de Lisboa. Depois de muitos anos como rosto do Poder e em simultâneo estacionamento de viaturas, o local não parece ter ainda encontrado a utilização nobre que a localização e configuração deixam adivinhar.

Faltam polos de natureza cultural e qualquer coisa mais que façam do Terreiro do Paço o coração da Lisboa ribeirinha e não um corredor de gente apressada vinda da margem sul e uma plataforma meia vazia para turístas. Ladeada por86 arcos, a Praça do Comércio mede177 por 192,5 metros. No centro da praça, a estátua de D. José foi inaugurada a 6 de Junho de 1775 no dia em que Sua Majestade completou 60 anos.

segunda-feira, julho 03, 2006

EXCLUÍDOS DA BAIXA POMBALINA

Mesmo junto à base da estátua de D. José, na Praça do Comércio, um sem abrigo lê o jornal e com a sua presença protesta. Protesta contra a desigualdade, as diferentes sortes, a vida madrasta, sabe-se lá que mais.

Não temos todos que ser iguais, mas deve haver mínimos aceitáveis em termos de cidadania e coesão social. Imagens como esta deviam ser coisa do passado.

Imagens e texto de Luís Miguel Correia - 2006

sexta-feira, junho 30, 2006

CAVALOS REAIS DA BAIXA POMBALINA

Dois cavalos com os seus respectivos Reis cavalgam sem parar pela Baixa Pombalina de Lisboa.
Por mais que se esforcem, não saiem do mesmo sítio.
Cada um domina a sua Praça e o imaginário de histórias passadas. Os paradoxos não se ficam por aqui, pois o Rei mais antigo chegou por último.
O mais moderno é o mais antigo: O cavalo da Praça do Comércio com o Rei D. José I é criação de Machado de Castro e foi inaugurado em 27 de Maio de 1775.

Já o seu congénere da Praça da Figueira, com El Rei D. João I, só lá está desde 1971 e foi executado por Leopoldo de Almeida.
Enfim, ser Rei a cavalo na Baixa Pombalina de Lisboa não é privilégio para uma qualquer cabeça coroada, sendo requisito aparente que as respectivas graças se iníciem por J.
Curiosamente, quando chegou à Figueira em 1971, o Mestre de Aviz - coroado Rei em 1384, quedou-se pelo centro da dita Praça. O rearranjo do local associado à construção de um estacionamento subterrâneo recolocou D. João I mais a poente, orientado no eixo da rua da Prata. Uma das muitas intervenções de um outro João, republicano e laico, de apelido Soares, quando Alcaide de Lisboa.

Fotografias e texto de Luís Miguel Correia - 2006

terça-feira, junho 27, 2006

JARDIM FERNANDO PESSA




Um encontro numa geladaria da Av. de Roma conhecida pelas suas cassatas deliciosas. Chegar antes da hora para contrariar hábitos ancestrais de disfunção horária e um passeio para queimar tempo por ali perto sem destino. Espreito com nostalgia a fachada do cinema Roma promovido a Assembleia Munícipal com direito a viaturas oficiais para os depureadores e polícias em excesso à porta e com curiosidade foco a minha atenção para nascente.
E ali está, escondido entre traseiras de prédios português suave virados à Av. de Roma, uns, à Av. de Madrid outros, um jardim. Uma placa diz chamar-se Jardim Fernando Pessa. E esta, hem? O jornalista lendário das emissões da BBC sob bombas dos maus nazis e das milhentas reportagens na RTP homenageado com um jardim secreto a lembrar aqueles pedaços de green espalhados entre casinhas iguais nos bairros discretos de Londres. Não fosse o sol de Lisboa.
Texto e fotografias de Luís Miguel Correia - 2006

sábado, junho 24, 2006

TRAZIAS DE LISBOA


Trazias de Lisboa o que em Lisboa
é um apelo do mar: um mais além.
Trazias Indias e naufrágios. Fado e Madragoa.
E o cheiro a sul que só Lisboa tem.

Trazias de Lisboa a velha nau
que nos fez e desfez (em Lisboa por fazer).
Trazias a saudade e o escravo Jau
pedindo por Camões (em Lisboa a morrer).

Trazias de Lisboa a nossa vida
parada no Rossio: nau partida
em Lisboa a partir (Ó glória vã
não mais não mais que uma bandeira rota).

Trazias de Lisboa uma gaivota.
E era manhã.

Poema de Manuel Alegre in Coisa Amar. Foto de L.M.Correia - 2006

segunda-feira, junho 05, 2006

PASSAGEM DE NÍVEL DA ROCHA


Lisboa tem sido uma presença fundamental na minha vida. Gosto muito da cidade em todos os seus aspectos, com ênfase para a vertente marítima, e fluvial. Porque para mim, o Tejo é a alma de Lisboa.

Muitas doces memórias mais remotas têm esta Lisboa como cenário. Uma delas, cheia de cores - as dos navios de então, prende-se com a passagem de nível da 24 de Julho à Rocha do Conde de Óbidos.

A partir de 1963, com a ida para o colégio, a passagem por lá todas as tardes era um ponto alto no itinerário da velha Magirus azul e branca do Externato Marista de Lisboa, conduzida com mestria pelo Sr. Baptista. Na época o traçado da avenida 24 de Julho não diferia muito do actual, mas o ritmo e a orgânica era outra. Polícias sinaleiros nos diversos cruzamentos e três passagens de nível, em Santos, na Rocha e em Alcântara. Para além de duas outras mais à frente, em Belém e Pedrouços. Todas entretanto suprimidas, excepto a da Rocha, que permanece com serventia apenas para peões. Como se pode observar nas fotografias, obtidas dia 19 de Maio.

Os edifícios são os mesmos, os combóios também. Em dias de paquetes atracados à Estação Marítima da Rocha, para além dos utentes habituais regista-se a presença animada de muitos turístas. E dos carteiristas que os tentam roubar.

Dia 19 o navio atracado era o SAGA ROSE, um paquete de 24.528 toneladas de arqueação bruta e 188,9 metros de comprimento, sensivelmente as mesmas dimensões e aspecto dos nossos saudosos SANTA MARIA e VERA CRUZ, que até 1973 atracavam sempre na Rocha. O SAGA ROSE foi construído em França em 1965 para a Norwegian America Line com o nome SAGAFJORD, e veio muitas vezes a Lisboa em cruzeiro com o nome original. Pertence à Saga Holidays, de Inglaterra, desde 1997 e faz cruzeiros destinados especialmente a passageiros com mais de 50 anos.

O meu regresso a casa todas as tardes tinha como primeiro atractivo a descida da avenida D. Carlos I, o Cais de Santos ao fundo sempre com uma chaminé amarela da Insulana à vista. Um dos paquetes mais antigos, o LIMA ou o CARVALHO ARAÚJO, mas também o CEDROS ou o FUNCHAL, mais raramente. O Cais de Santos incluia então o terminal privativo da Empresa Insulana, que assegurava as ligações marítimas com a Madeira e os Açores. Para além da Insulana, havia no extremo montante de Santos, o Cais do Gás, onde atracava o CORVO da Mutualista Açoreana, e para jusante, o entreposto de Santos, dedicado a cargueiros que faziam habitualmente a carreira do Norte da Europa, muitos dos quais alemães ou holandeses.

A Santos seguia-se o Estaleiro Naval da AGPL, com as carreiras de construção activas e os cascos das fragatas ALMIRANTE PEREIRA DA SILVA e ALMIRANTE GAGO COUTINHO a crescer de imponência com o decorrer dos dias. E finalmente passavamos frente ao Cais da Rocha e Doca de Alcântara. Então bem mais interessantes em termos de vida marítima que actualmente. Dessas passagens recordo com muita nitidez o EMPRESS OF BRITAIN, da Canadian Pacific, com a sua chaminé amarela magnífica e o MAURETANIA, da Cunard, então pintado de verde, como o CARÓNIA. E havia sempre os habituais, como os grandes paquetes da Colonial, os navios da companhia Itália, os espanhóis da Ybarra, os paquetes da Mala Real, Blue Star Line, P&O e British India. Tantos navios. Muitas saudades.

Fotografias e texto de Luís Miguel Correia - 2006